A solução pardal
Os homens perdem as esperanças e vão atrás da solução do tempo. A poção congela tudo ao seu redor, e as horas que antes passavam ásperas agora faz cócegas.
Os sem-esperança não gostavam do que viam, por isso decidiram desaparecer, viraram só almas. Mas as almas só não vêem a si mesmo, continuam vendo tudo ao seu redor. O vazio no qual se transformaram também machucava, mas como era muito difÃcil voltar a existir, decidiram também acabar com o vazio. Havia duas soluções: morrer ou imaginar que o vácuo não existia; não tinham coragem pra morrer.
Foram todos até a torre dos demônios, onde, claro, habitavam os demônios. Eram assim chamados não porque eram maus, mas porque eram feios - não os queriam por perto. Então os sem-esperança recebem a solução do tempo e passam a viver sua invisibilidade sem dores. Por pouco tempo.
Com as porções em mãos, rumaram em direção a seus lares. Uma dose… Os melhores minutos de sua vida, e os mais rápidos também. Outra dose… Minutos melhores ainda, uma vez que o desconhecido não os amedrontava, mas passou mais rápido o esquecimento. Outra… Os minutos passavam como milésimos de segundo, a realidade se escondia cada vez mais brevemente. E quando voltava, batia com força, fazia a alma chorar ainda mais com as memórias que voltavam. O tempo não era áspero mais, era martelo.
Descobriram que precisavam de mais soluções, muito mais. E assim foi, acabaram virando escravos da fuga.
Em cima de um fio da rede elétrica o pardal olhava as idas e vindas das almas famintas. Ela conhecia os demônios, sabia o que se escondia dentro deles. O mesmo que fazia o tempo doer para os sem-esperança doÃa nos habitantes da torre. A tristeza que traz a obsessão desatendida. Mas, mesmo sendo exploradores, eram vÃtimas. Os magos, feios e fedidos, com suas palavras mágicas convenciam as almas e os demônios a desejassem irracionalmente.
Uma vez encantados procuravam desesperadamente alcançar o mundo mágico dos magos, mas se viam tão fracos… De fato, para chegar ao mundo mágico era preciso muito mais do que se precisava para ter a porção do tempo. Tinham que levantar pedras dez vezes maiores que seu peso, agüentar temperaturas de vulcão e ter paciência de elefante porque tudo isso se prolongava por muito tempo.
Mas agora os demônios tinham escravos; agora podiam trocar o esforço dos outros pela passagem para o mundo mágico. A moeda do suor era aceita pelos Magos.
Um dia um dos habitantes da torre resolveu descer ao mundo dos magos, comprou sua passagem e foi. Era realmente muito bonito mas, como o próprio nome diz, mágico. Era tudo mágico, truque. O tempo passou a mutilá-lo novamente. Por quê?, perguntava-se. Foi aà que o pardal entrou pela janela e foi até o chão, onde estava deitado o demônio, e disse no seu ouvido:
- Agora você vai virar um escravo dos homens da torre. Num ato desesperado, sem porquê, o pardal foi pego pelo demônio.
- Me diga por que eu estou assim!
- Porque você foi iludido… Essa não é a solução pra sua dor.
- Não vou soltar você antes que me diga qual é a solução, espertinho… Está pensando que pode brincar assim comigo, é?
- A grande solução é seguir as pequenas soluções que flutuam na sua frente. Quando ouvir os pardais cantando, a solução é acordar. Quando vê o sol esquentar seu rosto, a solução é abrir os olhos. Quando alguém rir pra você a solução é rir de volta. Quando ouvir lágrimas caindo, a solução é o dar o seu ombro amigo. Nunca deixe nada levá-lo, apenas siga os pequenos chamados.
O demônio matou o pardal. Mas o pássaro deixou filhos, e isso pode até ser triste, mas por isso a solução ainda vai ser cantada todas as manhãs.
Esse texto foi originalmente escrito por César R. em agosto de 2003 e reescrito e corrigido por mim em outubro de 2006.
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Outubro 20th, 2006 at 10:02 am
Oi Rodrigo desculpa postar aqui - mas que sua página de contato não esta funcionando, vim aqui avisar que o IFDBlog mudou de endereço, peço a gentileza para que você mude o link onde cita o IFDBlog para http://www.ifd.com.br/blog/
valewww
e parabéns pelo seu blog